Melhorias Habitacionais: A Alavanca Invisível para a Reconstrução do Brasil — Uma Visão de Especialista
A vibrante cena política nacional frequentemente nos presenteia com iniciativas de grande ressonância social, e o anúncio do Programa Reforma Casa Brasil, em outubro, não foi exceção. Com uma promessa audaciosa de destinar R$ 30 bilhões em crédito para reformas, ampliações e adequações, a proposta governamental acendeu uma luz de esperança para milhões de famílias brasileiras que anseiam por melhorar seus lares. Como alguém que dedica mais de uma década a desvendar as complexidades da política e do desenvolvimento urbano, vejo neste programa um potencial gigantesco, não apenas para a injeção econômica local e a geração de empregos, mas, sobretudo, para a materialização do direito fundamental à moradia digna. No entanto, para que o programa transcenda a mera oferta de crédito e se torne um verdadeiro catalisador de transformação, é imperativo que abordemos certas tensões estruturais, particularmente a lacuna inicial de uma assistência técnica de projeto e acompanhamento. Esta é a chave para que as melhorias habitacionais se tornem efetivamente transformadoras.
O termo “reforma” muitas vezes simplifica uma realidade muito mais profunda. O que realmente precisamos são melhorias habitacionais substanciais e estruturadas, que vão além de uma pintura nova ou um piso trocado. Minha experiência de campo e a análise de dados robustos do setor apontam para a necessidade de uma intervenção estratégica. O cenário atual, delineado com clareza pela Nota Técnica nº 55 do Ipea (2025), é desolador: 16,3 milhões de famílias brasileiras, representando mais de 70 milhões de pessoas – quase um terço de nossa população –, vivem em condições de inadequação habitacional. Isso não se restringe a pequenos desconfortos; falamos de adensamento excessivo, ausência de banheiros, ventilação precária, riscos estruturais e vulnerabilidade generalizada. O custo estimado para erradicar essas precariedades é de R$ 273,6 bilhões, um montante que, embora vultoso, é comparável aos subsídios que viabilizaram a construção de 5 milhões de unidades habitacionais no ciclo inicial do Minha Casa Minha Vida. É, portanto, um investimento em habitação factível e de retorno social incalculável, com impactos positivos que reverberam por todas as dimensões da vida social e econômica do país.
A Dimensão Oculta da Inadequação Habitacional: Gênero, Raça e Território

Para além dos números frios, as melhorias habitacionais tocam em feridas sociais profundas. Não se trata apenas de problemas de infraestrutura; são questões de saúde pública e justiça social. A falta de ventilação adequada, por exemplo, é um vetor para casos de tuberculose endêmica e afeta diretamente o desenvolvimento cognitivo de crianças, expostas a níveis elevados de CO2 em seus lares. É vergonhoso constatar que, no século 21, ainda tenhamos 1,2 milhão de residências sem banheiro. Mas o dado mais contundente talvez seja o perfil dessas famílias em vulnerabilidade: 78% dos domicílios inadequados são chefiados por mulheres, e chocantes três em cada quatro dessas mulheres são negras. A precariedade habitacional, portanto, não é neutra; ela possui gênero, cor e território, sendo um reflexo brutal das desigualdades estruturais que permeiam a sociedade brasileira.
Entender essa complexidade é o primeiro passo para o sucesso do Programa Reforma Casa Brasil e de qualquer política habitacional eficaz. As soluções habitacionais precisam ser desenhadas com sensibilidade a essas realidades, reconhecendo que a casa é um microcosmo de nossa sociedade. Abordar essas desigualdades por meio de melhorias habitacionais direcionadas não é apenas uma questão de dignidade, mas de estratégia para construir um futuro mais equitativo.
A Autopromoção Habitacional: O Gigante Desconhecido da Construção Civil no Brasil
Um dos maiores paradoxos de nosso cenário habitacional reside no fato de que mais de 80% das moradias brasileiras foram erguidas sem qualquer acompanhamento formal de arquitetos ou engenheiros. Longe de ser um mero sintoma da “informalidade”, como muitos erroneamente a classificam, essa estatística revela a verdadeira “maior política habitacional” da história do Brasil: a autopromoção habitacional. É um fenômeno que moldou e continua a moldar nossas cidades. Milhões de brasileiros – pedreiros, carpinteiros, diaristas, vizinhos solidários – são os verdadeiros artífices de suas casas, construindo e ampliando um cômodo por vez, à medida que a renda e o tempo permitem. Este é o real setor de reformas e construção no país, operando na base da pirâmide.
Ao longo dos anos, testemunhei a criatividade e a resiliência desse setor, que se expandiu de maneiras notáveis. As construções se verticalizaram, surgiram mercados de aluguel por aplicativos em bairros periféricos e até mesmo o direito de laje foi conquistado, impondo ao Estado o reconhecimento legal de uma prática popular. Essa capacidade de criar soluções com poucos recursos, de resistir e de reinventar o espaço urbano diante da histórica ausência do Estado, representa um potencial emancipatório colossal. É uma fonte genuína de inserção independente e autônoma no desenvolvimento do país, uma “tecnologia da quebrada” que merece ser valorizada e integrada. A falta de assistência técnica para moradias nesse contexto, no entanto, é um risco que não podemos mais ignorar.
Da “Informalidade” à Exclusão: A Importância da Assistência Técnica para as Melhorias Habitacionais
Apesar de sua pujança e importância, essa força construtiva permanece invisibilizada e desvalorizada. O que a burocracia e a tecnocracia chamam de “informalidade” é, na verdade, o nome dado à exclusão sistêmica. Enquanto as classes médias e altas planejam suas construções com projetos arquitetônicos, alvarás e licenças – sempre viabilizadas por revisões de planos diretores e acesso facilitado a crédito e profissionais –, os menos favorecidos constroem suas vidas e seus lares com coragem, improviso e uma imaginação fértil.
É justamente neste ponto nevrálgico que políticas públicas como o Programa Reforma Casa Brasil encontram seu maior desafio e sua maior oportunidade. Sem uma assistência técnica para moradias de qualidade, sem um acompanhamento que integre essa “tecnologia da quebrada” ao conhecimento técnico formal, as reformas financiadas podem, paradoxalmente, reproduzir as mesmas patologias e inadequações hoje existentes. O risco é o de aprofundar as desigualdades e os riscos que o programa se propõe a combater. A simples oferta de crédito para reforma não é suficiente; a verdadeira transformação reside na capacidade de qualificar essa construção popular.
O Conceito de Melhorias Habitacionais: Um Novo Paradigma para a Dignidade

No campo da política pública e do urbanismo, temos insistentemente defendido o termo e o conceito de melhorias habitacionais. Esta abordagem se distingue radicalmente das reformas individuais e fragmentadas porque incorpora planejamento estratégico, diagnóstico preciso, priorização inteligente das intervenções e, crucialmente, acompanhamento técnico especializado, sempre focado em corrigir inadequações estruturais.
Nos últimos anos, no âmbito do governo federal e, em particular, no Ipea, desenvolvemos metodologias de pesquisa baseadas em “kits de melhoria”. A lógica é simples, mas seu potencial é profundamente transformador. Identificamos a inadequação – seja a ausência de um banheiro, a necessidade de ventilação adequada ou a precariedade da cobertura –, relacionamos essa inadequação a uma solução padronizada (o “kit”), e definimos o custo médio regional para a execução completa desse kit. Isso permite que se contratem itens específicos como a construção de um banheiro, a adição de um novo cômodo, a substituição da cobertura, e assim por diante. A execução do kit, neste modelo, não é medida em sacas de cimento ou metros cúbicos de areia, mas em resultados concretos: um banheiro entregue, uma casa com ventilação otimizada, uma família com maior dignidade.
Esse foco em resultados é fundamental para qualquer investimento sustentável em habitação. Garante que o dinheiro público e o esforço das famílias se traduzam em impactos reais e duradouros, melhorando não apenas a infraestrutura física, mas a qualidade de vida. A integração da engenharia social e da arquitetura acessível com o saber popular é a espinha dorsal dessa metodologia, garantindo que as soluções sejam culturalmente apropriadas e economicamente viáveis.
O Efeito Multiplicador das Melhorias Habitacionais: Um Compromisso com o Futuro
As melhorias habitacionais são mais do que um remendo; são um investimento com efeito multiplicador em toda a economia e na sociedade. Para além de qualificar as condições de moradia, elas impulsionam o comércio local, gerando demanda por materiais de construção e mão de obra qualificada. Tenho visto, em diversas comunidades, como a simples melhoria de uma casa pode revitalizar todo um quarteirão, criando um ambiente mais seguro e acolhedor.
Adicionalmente, essas ações têm o condão de espalhar pelo país um exército de médicos e enfermeiros, pois casas mais saudáveis significam famílias mais saudáveis, reduzindo a carga sobre o sistema público de saúde. Elas geram empregos formais e informais, aquecem o setor de reformas e construção, e reduzem as desigualdades de forma tangível. São políticas eficientes, rápidas e com alta capilaridade, conectando-se diretamente a temas cruciais para o desenvolvimento humano, como saúde familiar, segurança alimentar, educação infantil, igualdade de gênero, trabalho decente, sustentabilidade ambiental e segurança pública. Em termos simples, e como a minha experiência me ensinou repetidas vezes: melhorar casas é, em última instância, melhorar o país. É um investimento em habitação que se paga muitas vezes em capital social e humano.
Ao incorporar soluções construtivas mais eficientes e sustentáveis, como materiais pré-moldados de menor pegada de carbono, podemos modernizar a construção civil sem desconsiderar a “tecnologia da gambiarra”, ou seja, a engenhosidade brasileira de encontrar soluções criativas. Isso representa uma oportunidade para o mercado da construção civil Brasil desenvolver soluções em escala que se adaptem à realidade e ao poder de compra de milhões, garantindo a valorização de imóveis e a melhoria do patrimônio das famílias mais vulneráveis. É uma verdadeira gestão de projetos de moradia que se estende por todo o território nacional.
Mobilizando a Potência do Brasil: O Papel Essencial da Sociedade Civil Organizada
Para que o Programa Reforma Casa Brasil atinja seu verdadeiro e pleno potencial, é absolutamente crucial que o Estado enxergue e mobilize o “Brasil que já faz”. Pesquisas conjuntas do Ipea e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) identificaram 379 Organizações da Sociedade Civil (OSCs) que atuam ativamente com Habitação de Interesse Social (HIS). Projeta-se que esse número possa se aproximar de oitocentas até o final de 2025.
Essas entidades, muitas vezes discretas, espalhadas por periferias urbanas e áreas rurais remotas, formam uma rede viva de conhecimento técnico, social e comunitário. São associações de bairro, cooperativas habitacionais, coletivos e mutirões que há décadas constroem, reformam e projetam habitações populares. Elas não apenas entendem as nuances do território, mas também detêm a confiança das comunidades, sendo interlocutoras privilegiadas entre a política pública e a necessidade real. Incorporar essas OSCs no desenho e na execução do programa é garantir que a assistência técnica para moradias chegue de forma capilarizada e culturalmente adequada, transformando as comunidades e impulsionando as melhorias habitacionais de maneira eficiente e equitativa. São elas que fazem a consultoria habitacional de base, muitas vezes sem recursos adequados.
Conclusão: Um Chamado à Ação e à Visão de Futuro
Minha jornada de mais de dez anos trabalhando com política habitacional me ensinou que reformar casas é muito mais do que aprimorar estruturas físicas; é reformar vidas, é fortalecer laços comunitários e, em última instância, é reconstruir o próprio país. É um ato civilizatório. Ao corrigir uma instalação sanitária precária, erguer uma parede firme ou abrir uma janela para o vento e o sol, o Brasil reencontra a si mesmo – reencontra o seu povo em sua dignidade plena.
Para que isso aconteça, é preciso que o Estado brasileiro adote uma nova perspectiva, enxergando o território não como um repositório de problemas, mas como uma usina de potência. É essencial reconhecer, nas mãos daqueles que constroem suas casas com suor e inventividade, não apenas força de trabalho, mas uma sabedoria ancestral, uma imaginação sem limites e, acima de tudo, a cidadania em sua expressão mais fundamental. As melhorias habitacionais são o caminho para garantir o direito à moradia digna para todos. O financiamento imobiliário e o crédito para reforma devem ser acompanhados de inteligência e sensibilidade social.
É hora de unir a capacidade de investimento do governo à inteligência social e técnica que já existe nas comunidades e nas organizações da sociedade civil. O Programa Reforma Casa Brasil tem a chance de ser um divisor de águas, transformando a vida de milhões de famílias e impulsionando um desenvolvimento verdadeiramente inclusivo.
Queremos construir um futuro onde cada lar seja um porto seguro de dignidade e oportunidades. Convido você a aprofundar seu conhecimento sobre o tema, a apoiar iniciativas que promovem as melhorias habitacionais e a cobrar que nossas políticas públicas sejam cada vez mais eficientes e justas. Sua participação é fundamental para transformarmos o sonho da moradia digna em uma realidade para todos os brasileiros.

