Reforma Tributária e o Mercado de Aluguel de Curta Duração: Um Panorama Detalhado para Investidores e Proprietários em 2025
A paisagem do investimento imobiliário, especialmente no dinâmico setor de aluguel de curta duração no Brasil, está prestes a vivenciar uma transformação significativa. A partir de 2026, a implementação da tão aguardada Reforma Tributária, detalhada pela Lei Complementar 214/2025, trará consigo um novo paradigma de tributação para locações de imóveis, equiparando, para fins fiscais, as locações de curta temporada aos serviços de hotelaria. Essa mudança, que promete nivelar o campo de atuação e aumentar a arrecadação, demanda uma análise aprofundada por parte de proprietários, gestores e investidores que operam ou planejam ingressar neste segmento, especialmente em mercados de alta demanda como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.
Com uma década de experiência navegando pelas complexidades do mercado imobiliário e suas intersecções com o direito tributário, compreendo a apreensão que tais alterações podem gerar. O objetivo deste artigo é desmistificar a reforma, oferecendo um guia prático e aprofundado sobre os impactos, as novas obrigações e as estratégias de planejamento tributário disponíveis. A meta é munir você, profissional do setor, com o conhecimento necessário para não apenas se adaptar, mas prosperar neste novo cenário, otimizando sua rentabilidade e garantindo a conformidade fiscal.

O Novo Cenário Tributário: IBS, CBS e a Equiparação com a Hotelaria
O cerne da reforma para o mercado de aluguel de curta duração reside na criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que, em conjunto, formam o novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA) brasileiro. A novidade mais impactante é a equiparação das locações de imóveis por períodos inferiores a 90 dias aos serviços de hotelaria. Essa equiparação, que visa a neutralidade concorrencial, significa que as alíquotas e a forma de incidência tributária passarão a ser comparáveis às aplicadas em hotéis e pousadas.
É crucial, no entanto, estabelecer um divisor de águas: a grande maioria dos locadores casuais ou de pequena escala, aqueles que alugam um imóvel ocasionalmente para complementar a renda — como uma casa de praia para o verão ou um apartamento em outra cidade para visitas familiares —, não será diretamente afetada pela nova carga tributária. A legislação estabeleceu um patamar de renda anual para a incidência do novo IVA. Somente acima desse limite é que a cobrança do IBS e da CBS se torna obrigatória. Abaixo desse piso, a tributação se mantém no escopo anterior, sem a incidência dos novos impostos sobre consumo.
Quem Passa a Ser Contribuinte Obrigatório do IVA no Aluguel de Curta Temporada?
A Lei Complementar 214/2025 define com clareza quem se enquadra como contribuinte obrigatório do IBS e da CBS no contexto do aluguel de curta duração. O escopo abrange duas categorias principais:
Empresas que alugam imóveis: Entidades jurídicas cujo objeto social inclua a locação de imóveis, independentemente do porte, passarão a recolher o IVA sobre suas operações.
Pessoas físicas que atuam como locadores profissionais: A caracterização de “profissional” para fins tributários é definida por critérios específicos de volume e frequência:
Posse de mais de três imóveis para locação: A partir do quarto imóvel alugado, o locador pessoa física pode ser considerado profissional.
Renda anual bruta superior a R$ 240.000 com aluguéis: Este limite considera a soma de todas as rendas auferidas com locações imobiliárias.
Renda mensal bruta superior a R$ 24.000: Um indicador de alta frequência e volume de locações, mesmo que o total anual fique abaixo dos R$ 240.000. É importante notar que este valor mensal, multiplicado por doze, totaliza R$ 288.000, um teto que abrange situações específicas de alta rotatividade.
É fundamental ressaltar que a renda de curta temporada deve ser somada a outras rendas provenientes de aluguéis de longo prazo ou outras atividades imobiliárias para determinar o enquadramento no teto de R$ 240.000 anuais. Essa consolidação de receitas é um ponto chave para o planejamento tributário.
Daniel Bijos Faidiga, advogado tributarista e sócio da LBZ Advocacia, destaca que o impacto para os contribuintes obrigatórios tende a ser expressivo. “Esse tipo de locação foi equiparado à hotelaria, que, em geral, possui uma alíquota de tributação mais elevada. Anteriormente, a informalidade e a possibilidade de sonegação em locações diretas eram mais prevalentes. Com a obrigatoriedade de recolhimento via plataformas digitais, que atuam como intermediárias e estão sujeitas a fiscalização, a informalidade se torna inviável ou de altíssimo risco. O custo adicional, invariavelmente, será repassado ao consumidor, elevando o preço das estadias, ou resultará em uma diminuição da oferta, o que, por sua vez, também pressiona os preços para cima”, explica Faidiga.
A lógica por trás dessa equiparação, segundo o especialista, é garantir a neutralidade concorrencial. “Se o aluguel de curta duração compete diretamente com os serviços hoteleiros, a tributação deve refletir essa concorrência, sendo equitativa para serviços de natureza similar. O objetivo é evitar distorções de mercado onde um setor se beneficia de uma carga tributária menor”, complementa.
A Diferença de Alíquota: Um Cálculo Detalhado e a Nova Realidade do Imposto sobre Valor Agregado (IVA)
A discussão sobre a diferença de alíquotas entre o aluguel por temporada e a hotelaria se torna ainda mais relevante com o Projeto de Lei Complementar 108/2024, aprovado no Senado, que solidifica a equiparação, incluindo a manutenção dos mesmos limites de renda para a caracterização de locador profissional. Este PLP reforça que os R$ 240.000 anuais de receita bruta do exercício anterior devem ser a métrica para o enquadramento, considerando explicitamente a receita proveniente da locação por temporada.
Um estudo elaborado pela LCA Consultoria, a pedido do Airbnb, oferece um panorama alarmante sobre a carga tributária esperada para os proprietários que se enquadram como contribuintes do novo IVA. As estimativas apontam que a carga tributária total, somando o IVA devido pelos proprietários com a incidência de outros tributos sobre a renda da pessoa física, poderá atingir até 39% da receita bruta. Em alguns cenários mais conservadores, outros especialistas calculam que essa cifra pode chegar a 44%. Isso representa, em muitos casos, o dobro da alíquota média atualmente praticada no setor hoteleiro.
Essa projeção da LCA Consultoria, ao somar o IVA com a tributação sobre a renda da pessoa física, abre um leque de oportunidades para a reformulação do planejamento tributário. “Uma das tendências mais fortes que antecipamos é a profissionalização e a concentração do mercado. Locadores que possuem maior controle sobre seus custos operacionais — como serviços, manutenção e amenities — terão a capacidade de gerar créditos tributários. Esses créditos, ao serem abatidos do imposto devido, podem permitir a oferta de preços mais competitivos, especialmente se a operação for estruturada como pessoa jurídica”, detalha Faidiga.
Créditos Tributários e a Profissionalização do Setor: Uma Nova Era para a Gestão Imobiliária
A nova legislação tributária prevê que todas as despesas relacionadas ao consumo e à atividade imobiliária — como custos de reformas, manutenção, serviços de limpeza, marketing digital e aquisição de bens de consumo para os imóveis — gerarão créditos tributários. Estes créditos poderão ser deduzidos do valor do IVA devido, tornando a organização e a documentação meticulosa de todas as despesas um fator crucial para a gestão financeira e tributária. A guarda de notas fiscais, recibos e comprovantes de pagamento se torna, a partir de agora, uma prática indispensável.
Paralelamente, a reforma traz mudanças significativas na tributação da renda do locador. Entender como o Imposto de Renda (IR) incidirá sobre os ganhos com locação de curta temporada é vital para a tomada de decisão estratégica.
O Imposto de Renda para Locadores de Temporada: Dois Caminhos a Considerar
De acordo com Daniel Bijos Faidiga, existem dois cenários principais a serem considerados para o locador de temporada:
O Locador Permanece como Pessoa Física:
Isenção e Faixas de Tributação: As rendas provenientes de aluguel de curta temporada abaixo de R$ 5.000 mensais estarão isentas do Imposto de Renda. Para rendimentos superiores a este valor, mas abaixo de um determinado teto (atualmente R$ 7.350 mensais, sujeito a alterações), a legislação prevê alíquotas reduzidas ou descontos parciais, suavizando o impacto.
Alíquota de 27,5%: Para rendimentos que excedam essas faixas, a alíquota padrão de 27,5% do Imposto de Renda volta a incidir. Além disso, o IBS/CBS será cobrado conforme o enquadramento do locador como contribuinte obrigatório.
Impacto Positivo em Outras Rendas: Em alguns casos específicos, a nova estrutura de tributação pode gerar um efeito positivo, desonerando ou reclassificando outras rendas que antes não eram totalmente tributadas.
O Locador Atua como Pessoa Jurídica:
Oportunidades de Planejamento Tributário: A migração para a figura de pessoa jurídica (PJ) abre um leque de possibilidades para otimização fiscal. Duas estratégias se destacam:
Controle da Distribuição de Lucros: Uma empresa pode gerenciar a forma como os lucros são distribuídos aos sócios, utilizando mecanismos como a retirada de pró-labore e a distribuição de dividendos de maneira estratégica. Isso permite reduzir o impacto da retenção na fonte e do imposto mínimo, maximizando a receita líquida.

Pluralidade de Sócios: Ter mais de um sócio, como um cônjuge, permite distribuir melhor a renda auferida entre os indivíduos. Essa divisão pode resultar em uma carga tributária individual menor, pois cada sócio passará a se enquadrar em faixas de tributação mais vantajosas para o Imposto de Renda.
Faidiga ilustra com um exemplo prático: “Imagine um locador que aufere uma receita bruta de R$ 1,2 milhão ao ano. Se ele opera como pessoa física e não se beneficia de isenções ou faixas reduzidas, ele poderia ser tributado em cerca de R$ 120.000 de imposto de renda, considerando o limite mínimo de tributação. Contudo, se essa mesma receita for gerada por uma holding ou uma empresa com dois sócios, onde R$ 600.000 são atribuídos a cada um, nenhum dos sócios individualmente atingiria o teto que desencadeia o imposto mínimo. Nesse cenário, a holding atua como um filtro de tributação, mitigando significativamente a carga fiscal total.”
Linha do Tempo: Desvendando as Mudanças no Aluguel de Curta Duração
Para uma compreensão clara da jornada de adaptação, apresentamos uma linha do tempo detalhada:
2024: A Aprovação no Senado e a Preparação do Terreno
PLP 108/2024: Aprovado no Senado, este projeto consolida a proposta de equiparação do aluguel de curta duração (até 90 dias) aos serviços de hotelaria. Estabelece os limites de renda que definirão quem passará a ser tributado pelos novos impostos. É um sinal claro do que está por vir.
2025: Regulamentação e Intensificação do Debate
Lei Complementar 214/2025: Publicação da lei que regulamenta o novo IVA (IBS/CBS). Define formalmente os critérios para quem se torna contribuinte obrigatório: empresas locadoras de imóveis e pessoas físicas profissionalizadas (definidas por número de imóveis ou volume de receita).
Estudos e Estimativas: Diversos estudos, como o da LCA Consultoria, ganham projeção, indicando o forte impacto tributário esperado para os locadores enquadrados, com cargas estimadas em até 39% da receita. O debate sobre planejamento tributário se intensifica.
2026: A Transição e a Nova Realidade Operacional
Entrada em Vigor da Reforma Tributária: O novo IVA começa a incidir sobre as operações de aluguel de curta duração, tributadas como hotelaria. Locadores que não se enquadram nos tetos de renda continuam isentos. O IBS/CBS incide apenas para os contribuintes que atenderam aos critérios.
Impacto no Imposto de Renda: As novas regras do IR começam a ser aplicadas. Dois cenários consolidados:
Pessoa Física: Isenção para rendas mensais até R$ 5.000; alíquotas reduzidas ou descontos parciais para rendimentos entre R$ 5.000 e R$ 7.350; alíquota de 27,5% acima deste patamar, somada ao IVA quando aplicável.
Pessoa Jurídica: Início das estratégias de controle da distribuição de lucros e planejamento com múltiplos sócios para reduzir a carga individual. As holdings se consolidam como ferramentas essenciais de mitigação tributária.
Início da Transição para Profissionalização: A soma das rendas de curta temporada com outras receitas imobiliárias torna-se definitiva para o enquadramento. Avaliações sobre a migração para pessoa jurídica se tornam mais urgentes. A organização de despesas para a geração de créditos tributários é crucial.
A partir de 2026 e Adiante: Reorganização do Mercado
Concentração e Estruturação: O mercado tende a passar por uma reorganização, com uma provável concentração entre locadores mais estruturados financeiramente e com capacidade de investimento em conformidade e profissionalização.
Rastreabilidade e Cobrança Plena: Propriedades ofertadas através de plataformas digitais se tornam mais rastreáveis e sujeitas à cobrança integral dos tributos devidos. A informalidade se torna insustentável.
Impacto nos Preços: É esperado que os preços para o consumidor final sofram ajustes, seja pelo repasse direto dos custos tributários ou pela redução da oferta de imóveis no mercado informal.
Estratégias para Maximizar Seus Ganhos e Garantir Conformidade
A reforma tributária, embora desafiadora, também apresenta oportunidades para aqueles que souberem se adaptar e planejar. A profissionalização da gestão, a estruturação societária e o controle rigoroso de despesas são os pilares para navegar neste novo ambiente.
Se você é proprietário de um ou mais imóveis para aluguel de curta duração, ou um investidor imobiliário em potencial, entender os detalhes da Reforma Tributária é o primeiro e mais crucial passo. Ignorar essas mudanças pode resultar em custos imprevistos e sanções.
Recomendamos fortemente que você procure um especialista tributário e um consultor imobiliário experiente para analisar sua situação específica. Uma consulta detalhada poderá identificar as melhores estratégias para sua realidade, seja a manutenção como pessoa física, a constituição de uma empresa individual, a formação de uma holding familiar ou a adoção de outras práticas de planejamento.
Aproveite este momento de transição para reavaliar seus investimentos, otimizar suas operações e garantir que seu patrimônio imobiliário continue a gerar retornos sólidos e seguros. O futuro do aluguel de curta duração no Brasil é promissor, mas requer planejamento inteligente e ação proativa.

